Valuation: do que se alimenta?

Avaliar uma startup não é uma ciência exata, mas sim um mix de arte, conhecimento do mercado, experiência e, claro, método!

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A Zum! de hoje traz um artigo do Hugo Miada, sobre avaliação e precificação de startups.


O empreendedor enfrenta diversos desafios para transformar uma ideia em um negócio sustentável e lucrativo. A probabilidade de sucesso, infelizmente, não está a favor, já que a maioria dos projetos acabam morrendo antes mesmo de chegar a um MVP (Minimum Viable Product - Produto Mínimo Viável que pode ser vendido em um mercado). Porém, isso não é sinônimo de desânimo ou frustração, e sim de motivação e aprendizado, já que as falhas são ensinamentos riquíssimos na jornada de um empreendedor.

Assim, também, é o processo de avaliação de uma startup: ela depende do estágio em que a empresa se encontra, do ecossistema em que o negócio está inserido, dos seus objetivos e da equipe que irá fazer acontecer.

O fato é que avaliar uma startup não é uma ciência exata, mas sim um mix de arte, conhecimento do mercado e experiência.

Neste mundo de startups, sou muito mais um curioso e entusiasta, e neste artigo busco ajudá-los a entender como é feito o valuation (avaliação ou precificação de startups) para levantar recursos ou para uma possível venda, com exemplos e recomendações do que se tem praticado no mercado.

Quanto dinheiro preciso investir em minha startup?

A partir de projeções financeiras, é possível identificar quanto investimento será necessário para suportar o objetivo da empresa ou startup.

No exemplo abaixo, demonstro de forma simplista a projeção de um fluxo de caixa sinalizando em vermelho (Ano 3) o montante necessário de investimento para suportar o negócio nos próximos 5 anos. Esse montante envolve investimentos em capital fixo (capex) e capital de giro (capital operacional).

Como financiar o negócio

Sabendo quanto será necessário investir na empresa, o próximo passo é definir como financiá-la. Existem diversas formas:

Capital próprio

o empreendedor aportando dinheiro no negócio.

Vantagem:

  • Mantém o controle de 100% nas mãos dos empreendedores

Desvantagem:

  • Necessita de recursos financeiros para investir no negócio


Amigos, famílias e conhecidos (FFFs - Friends, Family and Fools):

Vantagem

  • Mantém o controle de 100% nas mãos dos empreendedores sem ter a necessidade de aportar recurso próprio.

  • Flexibilidade no repagamento do empréstimo.

Desvantagem

  • Gera uma obrigação de repagar o empréstimo.

  • Pode ser que peçam uma participação da empresa em caso de não pagamento


Empréstimos em instituições financeiras

Vantagem

  • Mantém o controle de 100% nas mãos dos empreendedores sem ter a necessidade de aportar recurso próprio

Desvantagem

  • Gera uma obrigação de repagar o empréstimo.

  • Geralmente requer garantias na pessoa física

  • Pode enfrentar dificuldades em conseguir empréstimo quando em estágio inicial da startup


Programas de Aceleração de Startups:

envolve a participação de um processo seletivo, assessoria e mentoria para as startups selecionadas e, às vezes, apoio financeiro. 

Vantagem

  • Mantém a participação da startup na mão dos empreendedores (apesar de que alguns programas trabalham com equity - levar uma % da empresa)

  • Suporte de uma equipe de mentores especializados para assessorar no desenvolvimento do negócio, o que pode acelerar o crescimento com menos recurso

Desvantagem

  • Requer um certo preparo e organização operacional para defender o seu projeto na banca de avaliação

  • Nem sempre o montante oferecido é o necessário para desenvolver o negócio


Investidores

Investidores anjo, venture capital, private capital, programas de aceleração,  entre outros. O tipo de investidor varia com os objetivos dos empreendedores e o estágio da startup, conforme bem apresenta o Guilherme Lima no artigo Entendendo o processo de FUNDRAISING para Startups. Vale a pena a leitura para entender com maior profundidade o processo para captação de investimento com um fundo de Venture Capital.

Ok, mas como faço para saber o valor da minha startup?

A forma de avaliar uma startup, conforme relacionado com o quadro acima, depende do seu estágio. Um ponto é se você já atingiu o Product Makret Fit (PMF), ou seja, se o seu produto já está adequado ao mercado que pretende atuar.

Para entender melhor sobre os estágios de evolução de uma startup, coloquei o gráfico apresentado em uma live feita pelo Rubens Approbato, da Poli Angels, sobre avaliação e precificação de startups na visão do investidor. Recomendo investir um tempo assistindo ao vídeo, mesmo que em algumas partes o entendimento possa ser complicado, para quem não possuir experiência em finanças. A mensagem principal é saber quais são os fatores que são levados em consideração na hora de se avaliar uma startup.

Na minha opinião, o principal desafio na avaliação de uma startup é o volume de dados disponíveis para suportar as premissas adotadas para o negócio. Quanto mais no início da jornada empreendedora, menos dados terá e mais difícil é de tentar prever crescimento.

Já as Startups em estágios mais avançados (serie A, e além), já possuem mais dados históricos para comprovar a sua performance e costumam utilizar métodos tradicionais de valuation, como o fluxo de caixa descontado ou múltiplos de ARR (annual recurring revenue - receita anual recorrente).

É importante também conhecer alguns termos utilizados, como pre-money e post-money,  explicado pelo Marcelo Toledo em seu artigo “Valuation: Guia definitivo de Startups”. 

“O pre-money valuation, nada mais é do que a avaliação da Startup feita antes de aportes financeiros. Essa avaliação pode oferecer aos potenciais investidores a primeira noção do valor real da empresa e o valor de suas ações. A partir dela, será possível ao investidor saber quanto lhe custará investir de modo a ter um determinado percentual de ações da Startup.

Já o post-money, corresponde aquele feito após um aporte, que normalmente vem sob a forma de uma participação, em geral minoritária, chamada equity. Assim, o valuation post-money será feito considerando o pre-money acrescido do aporte feito.”

Para facilitar o entendimento, vamos supor que um investidor ofereça $100.000 por 20% da startup:

[PMV)Post-money valuation:[aporte financeiro] / [% da empresa]

Post-money= $100.000/20% = $500.000

Pre-money valuation: [post-money valuation] – [aporte financeiro]

Pre-money=$500.000 - $100.000 = $400.000

Métodos para avaliar uma startup

Enfim, chegamos a algumas metodologias de avaliação praticadas no mercado. Umas são mais adequadas para os estágios iniciais e outras para estágios mais avançados. Lembrando que isso não é uma regra e os métodos podem entrar em diferentes estágios.

  • Quick Venture Capital: basicamente é o exemplo acima de post-money, em que se divide o aporte financeiro pela participação da empresa.

  • Venture Capital ou Capital de Risco: o valor da empresa está diretamente relacionado ao retorno financeiro que o investidor deseja ter dentro de um período de tempo. O foco está no valor de saída do investidor.

  • Múltiplos: o valuation consiste em comparar os múltiplos da startup com outras empresas do mesmo setor e tamanho. Alguns exemplos de múltiplos são: EBITDA, Receita e Crescimento, entre outros.

  • Fluxo de Caixa Descontado: consiste em utilizar o fluxo de caixa e trazer a valor presente a uma taxa de desconto. A parte mais sensível desta metodologia está no cálculo da perpetuidade que envolve estabelecer uma taxa de crescimento, que pode representar cerca de 80% do valor da empresa.

  • Scorecard: envolve a média do valor de mercado de empresas semelhantes x nota obtida somando os fatores relevantes para o avaliador. A nota consiste em uma análise qualitativa sobre: equipe, tamanho do mercado, tecnologia, dentre outros

Links para outros métodos:

Pré PMF

Pós PMF

Também vale lembrar que, neste mundo volátil em que vivem as startups, é comum avaliar tentando se comparar com casos semelhantes aos de outras startups de um mesmo segmento, levando em consideração alguns fatores como:

– o empreendedor e o time;

– o mercado alvo e seu tamanho;

– o grau de inovação dela frente aos concorrentes;

– risco de mercado.

Acima de tudo, a questão não é simplesmente saber fazer o cálculo do valor de uma startup, mas sim para qual finalidade o valuation serve . Ainda, conhecer os interesses do financiador/investidor é primordial, de modo a buscar a melhor forma de apresentar o seu negócio e, com isso, obter as melhores condições para ambas as partes.